Um supercontinente nu pode ter transformado a Terra em uma gigantesca bola de gelo há 650 milhões de anos. A hipótese da Terra Bola de Neve descreve períodos em que o planeta teria sido coberto por gelo em grande parte de sua superfície, com alguns modelos sugerindo que até mesmo regiões próximas ao equador poderiam ter permanecido congeladas. Esses episódios ocorreram durante o Neoproterozoico, entre aproximadamente 720 e 635 milhões de anos atrás, pouco antes da explosão de diversidade biológica que marcou o início do Cambriano.
Naquela época, a maior parte das terras emersas estava reunida em um único supercontinente chamado Rodínia. Grande parte dessa massa continental localizava-se em regiões tropicais, onde a incidência solar era mais intensa. No entanto, a superfície terrestre era muito diferente da atual. Sem florestas, gramíneas ou qualquer cobertura vegetal significativa, extensas áreas eram compostas por rochas claras que refletiam grandes quantidades de luz solar. As plantas desempenham um papel fundamental no equilíbrio climático, pois sua coloração mais escura absorve mais energia solar do que superfícies rochosas expostas, reduzindo a quantidade de radiação refletida para o espaço.
Segundo os modelos analisados pelos pesquisadores, o solo nu de Rodínia possuía um albedo elevado, ou seja, refletia grande parte da luz recebida. Isso favorecia o resfriamento global. Quando o gelo começava a se expandir, surgia um poderoso ciclo de retroalimentação. O gelo refletia ainda mais luz solar, provocando temperaturas mais baixas e estimulando a formação de mais gelo. Esse processo poderia transformar um resfriamento inicial em uma glaciação planetária de enormes proporções.
Os cientistas destacam que as condições da Terra moderna são muito diferentes daquelas existentes há centenas de milhões de anos. O Sol está mais brilhante e a vegetação cobre grandes áreas do planeta. Além disso, os continentes estão distribuídos de forma distinta e os níveis atmosféricos de dióxido de carbono permanecem muito acima dos valores que favoreceriam um congelamento global completo. Essas diferenças são cruciais para entender por que um evento como a Terra Bola de Neve não pode ocorrer nos dias atuais, mas elucidam a importância de fatores como a vegetação e a configuração continental no clima do planeta.