Dom Arnaldo Carvalheiro Neto, bispo da Diocese de Jundiaí (SP), foi nomeado representante nacional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para o acompanhamento de grupos católicos LGBTQIAPN+. A indicação, feita em 17 de outubro e válida até 2028, cria um canal institucional permanente de diálogo entre a entidade episcopal e a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBTs, que reúne comunidades de fé em pelo menos 15 estados. Com a medida, a CNBB formaliza pela primeira vez um interlocutor específico para questões pastais relacionadas à população LGBTQIAPN+, ampliando a possibilidade de articulação entre as dioceses e os grupos que atuam há mais de uma década no país.

A função atribuída a Dom Arnaldo não sobrepuja a autoridade dos bispos diocesanos, mas oferece um ponto de referência para que paróquias e movimentos solicitem apoio técnico, orientação doutrinária ou mediação de conflitos. Formado em filosofia e teologia por instituições paulistas e com especializações em direção espiritual obtidas nos Estados Unidos e na Irlanda, o prelado de 58 anos foi ordenado padre em 1997 e consagrado bispo em 2016. Antes de chegar a Jundiaí, passou por paróquias do interior paulista e acumulou experiência em capelania hospitalar. A escolha partiu da presidência da CNBB após discernimento com as comissões de Pastoral e de Doutrina da conferência, que avaliaram a existência de “demanda recorrente” por parte da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBTs.

Criada em 2021, a pastoral LGBTQIAPN+ da Diocese de Jundiaí funciona como modelo do trabalho que a CNBB espera ver replicado. Reúnem-se semanalmente cerca de 45 pessoas – entre elas jovens, casais e religiosos – para momentos de oração, estudo de documentos do magistério e rodas de escuta sobre preconceito familiar, discriminação religiosa e dificuldades de inserção na vida paroquial. Os encontros são abertos também a familiares e amigos, e os dados internos da diocese indicam que, desde a criação do grupo, houve aumento de 30 % na frequência de comunidades que passaram a acolher publicamente pessoas LGBTQIAPN+ nos serviços litúrgicos. A Rede Nacional, que congrega aproximadamente 2.300 membros em 42 grupos, celebrou a nomeação como “reconhecimento institucional” e planeja solicitar a Dom Arnaldo a elaboração de diretrizes pastorais que possam nortear os bispos locais.

Especialistas em religião observam que a medida insere a CNBB no mesmo movimento de igrejas da América Latina – como a de Chile, que criou um observatório sobre discriminação, e a do Peru, que publicou um guia de acompanhamento –, mas sem alterar o Catecismo da Igreja. O bispo auxiliar de São Paulo, que integra a comissão de Pastoral da conferência, confirma que não há mudança doutrinária: a orientação mantém o celibato como regra e vê o matrimônio como união entre homem e mulher. A expectativa da CNBB é que, até 2026, pelo menos 30 % das 275 dioceses brasileiras passem a oferecer algum tipo de serviço de escuta ou grupo de estudo voltado à população LGBTQIAPN+, com relatórios semestrais encaminhados ao novo representante.

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