Na quarta-feira 26 surgiram, sem aviso de selos ou empresas, onze minutos de imagem de 1977 que enchem lacuna histórica: a única aparição televisiva de Dave Walker como vocalista do Black Sabbath, agora visual na íntegra depois de quarenta e sete anos só em áudio. A gravação do programa “Look! Hear!” da BBC Midlands, mantida fora de catálogos oficiais, reapareceu num canal anônimo do YouTube e já ultrapassa cento e vinte mil exibições em três dias, viralizando entre colecionadores que buscavam qualquer registro da formação esquecida entre a saída temporária de Ozzy Osbourne em setembro de 1977 e seu retorno em janeiro seguinte.

O contexto é o pré-produção do que viria a ser Never Say Die!, oitavo disco de estúdio da banda. Quando Ozzy pediu contas, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward convocaram Walker, inglês de trinta e dois anos então desconhecido do grande público mas com passagens breves pelo Fleetwood Mac e currículo sólido no Savoy Brown. Durante quatro meses o quarteto ensaiou no castelo de Clearwell, Gloucestershire, e desenvolveu versões primárias de “Junior’s Eyes”, “Swinging the Chain” e outras que seriam reescritas depois. A existência de fitas de estúdio com o vocalista nunca foi confirmada por editores; apenas demos de referência circulam entre traders sob o rótulo “The Dave Walker Tapes”, em qualidade inferior a 160 kbps. A apresentação da BBC, feita ao vivo com playback de guitarras, mostra o grupo executando “War Pigs” em mi bemol e a nova composição em tempo 4/4 com intro de órgão Hammond, arranjo que seria abandonado quando Ozzy retomou o posto e impôs riffs mais rápidos.

A brevidade da passagem de Walker limitou-se a essa sessão de TV e a poucos ensaios fechados. Quando Ozzy aceitou voltar, recusou-se a cantar qualquer tema concebido sem ele; Iommi então reconstituiu as estruturas, elevando o andamento de “Junior’s Eyes” de 92 para 118 bpm e mudando a tonalidade de lá menor para sol sustenido menor. O álbum saiu em 28 de setembro de 1978 pela Vertigo, alcançou 71 mil cópias na primeira semana no Reino Unido e parou no 12.º lugar da parada britânica, resultados abaixo dos 250 mil unidades iniciais de Sabotage (1975). A turnê britânica tez 21 shows; o norte-americano, 32. Em todos eles o Sabbath abria para o Van Halen, então desconhecido, que acabou eclipsando a plateia com vendas de camisetas superiores em 3,5 vezes. A reação da crítica dividiu-se entre o NME, que classificou o registro como “peso morto do proto-metal”, e Melody Maker, que notou “riffs afiados, porém desgastados”.

A filmagem inédita não altera a narrativa oficial, mas oferece comparação direta entre as duas versões de “Junior’s Eyes”. A performance de Walker mantém timbre rouco e phrasing mais próximo do blues, enquanto Ozzy, na mixagem final de 1978, adota maior agressividade nasal e deslocamentos de melodia que aproximam o refrão do hard rock setentista típico. O material também revela o uso de um segundo guitarrista de apoio no estúdio da BBC, função creditada apenas como “amigo da casa” na ficha de preenchimento da banda. Desde o upload, fóruns especializados discutem a possibilidade de surgir mais metragem: os arquivos da BBC indicam que a fita original teria trinta e cinco minutos, mas apenas onze foram disponibilizados, deixando em aberto a existência de outras músicas ou entrevistas ainda não digitalizadas.

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