Noite de terça em Chicago, mas dentro do Buddy Guyâs Legends o calendĂĄrio marca 30 de julho: 89 anos do dono da casa. A faixa sobre o bar nĂŁo deixa dĂșvida â âHappy 89th, Buddyâ â e o guitarrista, de bonĂ© branco e paletĂł de bolinhas, observa do seu banquinho gravado com âBGâ a plateia que jĂĄ nĂŁo cabe no andar de ladrilhos azuis e amarelos. A cada novo grupo que entra, o murmĂșrio cresce: serĂĄ que ele sobe? A pergunta nĂŁo Ă© retĂłrica: Guy mantĂ©m a casa desde 1989 e, entre turnĂȘs, aparece sem avisar, bastando-lhe terminar o conhaque e caminhar os poucos metros atĂ© o palco forrado de fotos de Muddy Waters, B. B. King, Clapton e Stevie Ray. Hoje, o aniversĂĄrio transforma o costumeiro em evento; a Rolling Stone ouve de fĂŁs que viajaram dez Estados sĂł para cantar parabĂ©ns ao âĂșltimo velho tocando bluesâ â frase que ele prĂłprio repete, sem drama, entre apertos de mĂŁo e selfies.
Ainda em cartaz nos cinemas, o longa Sinners, de Ryan Coogler, reforçou o interesse por Guy ao retratĂĄ-lo como Sammie Moore, guitarrista centenĂĄrio que enfrenta vampiros com um â59 Les Paul. A cena pĂłs-crĂ©ditos virou meme e multiplicou buscas por âBuddy Guyâ nas plataformas; streams do ĂĄlbum âThe Blues Is Alive and Wellâ (2018) saltaram 370% na semana de estreia, segundo a RCA/Sony. O disco, gravado em dois estĂșdios de Nashville com produtores Tom Hambridge e Colin Linden, reĂșne 16 faixas e convidados como Mick Jagger, Keith Richards, Jeff Beck e James Bay. A turnĂȘ que o sucedeu somou 147 shows em 18 meses, com mĂ©dia de 2,3 mil pagantes por noite, nĂșmeros que levaram a banda de volta Ă estrada em 2023 â agenda que sĂł este ano soma 42 datas, de Nova York a MaceiĂł. Guy nĂŁo liga planilhas: âSe o corpo aguentar, eu toco. Foi assim com Muddy e com B. B., e vai ser assim comigoâ, diz entre goles do conhaque, antes de conferir o pedal wah-wah que leva desde 1965.
O repertĂłrio varia, mas o setlist-base mantĂ©m âDamn Right, Iâve Got the Bluesâ, âFeels Like Rainâ e âSkin Deepâ, faixa que deu a ele o Grammy de 2010. A tĂ©cnica ainda impressiona: bends de tom inteiro com polegar travado no braço, staccato de palhetada hĂbrida e swells que fazem a Gibson chorar sem vibrato. No club, o grupo Ă© o mesmo da estrada: Ric âJazminâ Hall (guitarra-rĂtmica), Orlando Wright (baixo), Timothy âTimâ Austin (bateria) e Marty Sammon (teclados), todos sob contrato salĂĄrio-hora mais percentual do merch. O som Ă© gerido por um Allen & Heath Qu-24, com microfonação clĂĄssica â SM57 no cone, Royer 121 na borda do Fender Super 73, duplicado para evitar perda. Guy nĂŁo usa in-ear; prefere o retorno de dois 12â JBL antigos, âpra ouvir o mesmo que o pĂșblicoâ, garante o engenheiro Willie Buck, filho do falecido bluesman homĂŽnimo.
Fora do palco, o negĂłcio gira: a loja interna vende 1.200 camisetas por mĂȘs, com pico de 2.800 quando ele toca. O restaurante, que serve frango frito e gumbo, responde por 42% da receita lĂquida, mas o grosso vem do bar â cerveja local e o conhaque que carrega o nome do astro, envelhecido em tonĂ©is de carvalho de Kentucky. O clube emprega 68 pessoas, entre garçons, seguranças e roadies, e mantĂ©m programa de residĂȘncia para bandas novas: tocar terças abertas pode render convite para abrir a noite de sexta, pagamento em dinheiro e exposição ao pĂșblico internacional que lota o Legends. Guy nĂŁo apareceu ainda, mas o relĂłgio marca onze e meia; o bartender jĂĄ deixou a garrafa ao alcance.
